sábado, 14 de novembro de 2009

“Mr. Gorbachev, derrube este muro!”

Alguns historiadores datam o fim do século XX no dia 9 de novembro de 1989. Naquela noite fria, milhares e milhares de habitantes da Alemanha Oriental foram rumo à fronteira com o território de seus irmãos ocidentais e exigiram passagem. Os que ficaram em casa achavam tudo aquilo absurdo. Absurdo porque durante vinte oito anos era impensável tal atitude por parte daquelas vidas separadas pelo muro; absurdo porque uma reação desproporcionalmente violenta por parte dos líderes do regime era algo comum.

O muro de Berlim diz muitas coisas sobre o século XX. Diz muita coisa sobre o que se chama Socialismo (ou Comunismo). Diz muito também a respeito do Capitalismo. Aquele concreto engenhosamente construído diz muito sobre o modo de fazer política no planeta Terra antes e depois de sua queda. Mas há também as mensagens que sua queda deixou. Uma delas é a de que a criatividade e aspirações que ligam o universo de um indivíduo ao de outro e o conjunto desses insondáveis universos particulares – a Sociedade – não deve ser objeto de demasiada coerção e planejamento por parte das autoridades em busca de um fim nobre – ainda que tais autoridades sejam legítimas e seus objetivos sejam realmente dignos de admiração.

A construção do muro de Berlim esconde a verdadeira causa de sua queda. Em 1961, o governo da Alemanha Oriental, preocupada com o elevado número de fugas para o lado capitalista, resolveu pôr fim a esta oportunidade de escolha de seu povo. Parece que esse desejo reprimido permaneceu latejando na mente e nos corações desses milhares de adultos e jovens que não estavam em Moscou em 1917, quando da tomada do poder pelo partido Bolchevique. Ao que tudo indica, ao longo do tempo a revolução foi perdendo não só seus ideais de Igualdade e emancipação (que paradoxalmente eram buscados às custas de excessivo controle e coerção) como também perdeu sua legitimidade. O episódio da Primavera de Praga, em 1968, é o corolário desta afirmação. Aqueles sim, verdadeiros revolucionários, queriam um Socialismo de “face humana”... Infelizmente os filhos de Lênin só entendiam as linguagens bélicas.

A Guerra Fria foi um período de alta tensão – e paradoxal estabilidade política – na qual as idéias de uma sociedade Capitalista de valores Liberais disputaram com a “alternativa” Socialista de valores igualitários (pelo menos, na teoria). Dizer que havia uma disputa entre hegemonia bélica é ingenuidade. Se a extinta URSS realmente tivesse poder de fazer frente ao arsenal norte-americano seu fim teria sido muito mais traumático. Em termos de economia também não há como aludir a uma disputa. O gigantesco abismo que separava o nível material do mundo capitalista do mundo comunista ficou visível quando aquelas antigas repúblicas anexadas à URSS se viram, pós 1991, na competição capitalista. Os efeitos colaterais daquele atraso se fazem presentes até hoje na Europa Oriental.

E sobre a política não há muito que falar. As experiências comunistas se caracterizaram por falta de eleições, partido único, censura, controle de informações e repressão violenta a dissidentes. E foi isto que fez vários intelectuais de todo o mundo se questionarem se o que acontecia no mundo Soviético era mesmo uma causa pela qual lutar. E dessa dissidência intelectual (principalmente na França) nasceu um pensamento crítico extremamente fecundo. Aliás, pode-se dizer que a Social-democracia nascida na Alemanha, no fim do século XIX, já era um dos prenúncios de que a Utopia da Liberdade via Controle – Socialismo – não era viável nem atraente.

O colapso Soviético não foi novidade. Não foi um erro de estratégia política. Nem mesmo um “azar”, apesar de que muitos dos apaixonados pelas idéias vermelhas dizem que teria dado certo, caso bem aplicado. Friedrich Von Hayek, economista austríaco (Nobel de Economia), em 1944 já falava da inevitabilidade do fracasso do planejamento central. E nesta época o modelo russo parecia dinâmico e “alternativo”. E foram justamente as idéias de planejamento central que influenciaram as idéias desenvolvimentistas-nacionalistas que pressupunham a necessidade de um Estado Indutor da Industrialização e Crescimento Econômico. Bem ou mal, os países periféricos (chamados à época de terceiro mundo; ex. Brasil, México) conseguiram em um tempo relativamente curto modernizarem suas economias. O custo disso foi a corrupção e a formação de democracias débeis e autoritárias.

Era sobre este inconveniente que Hayek chamava atenção em seu livro “O caminho da servidão”. Para ele, as sociedades livres, democráticas e de mercado deviam seu sucesso à interação de milhares de desejos, convicções e habilidades que postas em um ambiente pacífico e estável produziam um número infinito de informações e sinais à atividade econômica. O resultado dessa desordem era uma ordem espontânea extremamente eficiente e de opulência material. É só nesta ordem que haveria democracia – que muito antes de ser o povo no governo é governo do indivíduo sobre si mesmo. Nenhuma autoridade política (o planejador central) seria capaz de entender e processar as infinitas informações que as pessoas livremente associadas eram capazes de produzir. Restava-lhe ser ineficiente e coagir as pessoas a agirem conforme o planejamento. Morta a criatividade, já não haveria progresso tecnológico e de idéias. Se há uma causa para a queda daquele muro, com certeza é a mentalidade daqueles que o construíram.

Quando Mikhail Gorbachev assumiu o poder em 1985 começava a ficar claro para o ocidente capitalista de que as coisas estavam mudando. Gorbachev fazia parte de um grupo dentro da Burocracia soviética que há muito já enxergava que aquela falsa estabilidade política (porque repressora) somada à irracionalidade do sistema produtivo eram os fatores conjugados que levariam o comunismo à ruína por suas contradições internas (que ironia!).

Nos anos finais da URSS (extinta em 1991), Gorbachev se recusou a interferir nas rebeliões dos outros regimes comunistas na área de sua influência. Em cada fronteira da URSS, os povos queriam derrubar seus muros sociais e psicológicos. E Gorbachev parecia estar sob efeito do pedido que ouviu em frente ao portão de Brandemburgo do presidente norte-americano, Ronald Reagan (muito influenciado pelas idéias de Hayek): “Gorbachev, derrube este muro”.

É óbvio que a transição dos países da Europa Oriental foi traumática. Acostumados a um sistema ineficiente e letárgico - produtor de pessoas acostumadas a receberem tudo do Estado -, se viam agora nos sistemas capitalistas democráticos, baseados na competição e na criatividade. Porém mais óbvio ainda é que não querem mais aquele muro e nem mais aqueles que o construíram. Prova disso é a rejeição, em toda a Europa, a partidos tradicionalmente de esquerda.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Educação ou Ética?

É comum quando se discute as mazelas da sociedade brasileira chegar a um denominador comum sobre a causa - e por conseqüência a cura - de tais problemas: Falta educação de qualidade a nosso povo. Tal conclusão pode carregar uma ambigüidade. De que educação estamos falando? De um conjunto de valores éticos e morais que proporcionam uma convivência social minimamente estável? Ou estamos nos referindo àquele processo de reprodução/transmissão de conhecimentos técnicos e (também) éticos necessários não só à formação de um ambiente social satisfatório como também para o desenvolvimento material tão almejado em nossas sociedades?


As duas opções, apresentadas acima, não se excluem. Mas vamos nos ater à segunda opção: Aquela que pressupõe uma correlação positiva entre educação e ética (dito de outra forma, entre educação e progresso moral). Neste tipo de pensamento, uma melhora nos processos educacionais traria significativa melhora nas relações sociais estabelecidas entre os diversos grupos que compõe a sociedade. Soma-se a este argumento a tese econômica (correta) de que uma educação de melhor qualidade traz consigo progresso material (crescimento econômico). A soma destes dois argumentos tem como produto a tese, ao menos implícita, de que há correlação positiva entre riqueza e ética – ou seja, se os brasileiros fossem mais ricos (e por que não menos desiguais economicamente?) seriam mais éticos.

Não é preciso pensar muito para refutar esta tese. Caso fosse verdadeira, milhões de africanos vivendo na extrema pobreza seriam inevitavelmente corruptos. A vida social na Palestina – com o desemprego beirando 40% - seria impossível. Pior que isto é constatar que os piores índices de criminalidade estão no país mais rico do planeta. Sem falar que, se é verdade que opulência material produz ética, os políticos brasileiros (e a minoria social na qual têm berço) seriam ótimos exemplos de bom comportamento social e político.

Enfim, pode-se admitir que Educação, Riqueza e Ética são processos que muitas vezes se misturam e se afetam mutuamente; mas de modo algum se determinam.

Trouxe essa discussão à tona após ver em todos os jornais do país as notícias que tratavam acerca da loira da Uniban. É cômico, para não dizer trágico, ver alunos de uma Universidade agirem com tamanha ignorância, irracionalidade, estupidez, incivilidade e todo e qualquer termo que caracterize aqueles vândalos (que alguns pensam ser o futuro do país). Não se enganem. Não são jovens pobres. Não são jovens que cresceram em favelas. Cresceram em condomínios fechados. Muitos deles com certeza estudaram em escolas particulares. Muitos devem ser bilíngües. Cresceram também assistindo nossos entretidos programas de TV e se valendo do mundo de informações que a Internet nos proporciona. O resultado de tal criação/educação foi um bando de mentecaptos.

Quem achou que todos os componentes acima citados teriam como produto uma sociedade mais aberta, tolerante e menos preconceituosa e violenta (porque o tratamento dado àquela moça se caracteriza como violência) se enganou. Só na teoria mesmo.

E ver tais cenas num país como o Brasil, que durante quatro dias do ano vira um puteiro a céu aberto, torna ainda mais paradoxal e digno de repúdio. Não cabe julgar se a atitude “loiruda” é correta. Talvez uma sala de aula realmente necessite de pessoas vestidas de forma mais apropriada. O que em nada justifica a ação daqueles animais – não falo dos alunos, falo dos diretores da Universidade que queriam expulsar a aluna indecente.