
O muro de Berlim diz muitas coisas sobre o século XX. Diz muita coisa sobre o que se chama Socialismo (ou Comunismo). Diz muito também a respeito do Capitalismo. Aquele concreto engenhosamente construído diz muito sobre o modo de fazer política no planeta Terra antes e depois de sua queda. Mas há também as mensagens que sua queda deixou. Uma delas é a de que a criatividade e aspirações que ligam o universo de um indivíduo ao de outro e o conjunto desses insondáveis universos particulares – a Sociedade – não deve ser objeto de demasiada coerção e planejamento por parte das autoridades em busca de um fim nobre – ainda que tais autoridades sejam legítimas e seus objetivos sejam realmente dignos de admiração.
A construção do muro de Berlim esconde a verdadeira causa de sua queda. Em 1961, o governo da Alemanha Oriental, preocupada com o elevado número de fugas para o lado capitalista, resolveu pôr fim a esta oportunidade de escolha de seu povo. Parece que esse desejo reprimido permaneceu latejando na mente e nos corações desses milhares de adultos e jovens que não estavam em Moscou em 1917, quando da tomada do poder pelo partido Bolchevique. Ao que tudo indica, ao longo do tempo a revolução foi perdendo não só seus ideais de Igualdade e emancipação (que paradoxalmente eram buscados às custas de excessivo controle e coerção) como também perdeu sua legitimidade. O episódio da Primavera de Praga, em 1968, é o corolário desta afirmação. Aqueles sim, verdadeiros revolucionários, queriam um Socialismo de “face humana”... Infelizmente os filhos de Lênin só entendiam as linguagens bélicas.
A Guerra Fria foi um período de alta tensão – e paradoxal estabilidade política – na qual as idéias de uma sociedade Capitalista de valores Liberais disputaram com a “alternativa” Socialista de valores igualitários (pelo menos, na teoria). Dizer que havia uma disputa entre hegemonia bélica é ingenuidade. Se a extinta URSS realmente tivesse poder de fazer frente ao arsenal norte-americano seu fim teria sido muito mais traumático. Em termos de economia também não há como aludir a uma disputa. O gigantesco abismo que separava o nível material do mundo capitalista do mundo comunista ficou visível quando aquelas antigas repúblicas anexadas à URSS se viram, pós 1991, na competição capitalista. Os efeitos colaterais daquele atraso se fazem presentes até hoje na Europa Oriental.
E sobre a política não há muito que falar. As experiências comunistas se caracterizaram por falta de eleições, partido único, censura, controle de informações e repressão violenta a dissidentes. E foi isto que fez vários intelectuais de todo o mundo se questionarem se o que acontecia no mundo Soviético era mesmo uma causa pela qual lutar. E dessa dissidência intelectual (principalmente na França) nasceu um pensamento crítico extremamente fecundo. Aliás, pode-se dizer que a Social-democracia nascida na Alemanha, no fim do século XIX, já era um dos prenúncios de que a Utopia da Liberdade via Controle – Socialismo – não era viável nem atraente.
O colapso Soviético não foi novidade. Não foi um erro de estratégia política. Nem mesmo um “azar”, apesar de que muitos dos apaixonados pelas idéias vermelhas dizem que teria dado certo, caso bem aplicado. Friedrich Von Hayek, economista austríaco (Nobel de Economia), em 1944 já falava da inevitabilidade do fracasso do planejamento central. E nesta época o modelo russo parecia dinâmico e “alternativo”. E foram justamente as idéias de planejamento central que influenciaram as idéias desenvolvimentistas-nacionalistas que pressupunham a necessidade de um Estado Indutor da Industrialização e Crescimento Econômico. Bem ou mal, os países periféricos (chamados à época de terceiro mundo; ex. Brasil, México) conseguiram em um tempo relativamente curto modernizarem suas economias. O custo disso foi a corrupção e a formação de democracias débeis e autoritárias.
Era sobre este inconveniente que Hayek chamava atenção em seu livro “O caminho da servidão”. Para ele, as sociedades livres, democráticas e de mercado deviam seu sucesso à interação de milhares de desejos, convicções e habilidades que postas em um ambiente pacífico e estável produziam um número infinito de informações e sinais à atividade econômica. O resultado dessa desordem era uma ordem espontânea extremamente eficiente e de opulência material. É só nesta ordem que haveria democracia – que muito antes de ser o povo no governo é governo do indivíduo sobre si mesmo. Nenhuma autoridade política (o planejador central) seria capaz de entender e processar as infinitas informações que as pessoas livremente associadas eram capazes de produzir. Restava-lhe ser ineficiente e coagir as pessoas a agirem conforme o planejamento. Morta a criatividade, já não haveria progresso tecnológico e de idéias. Se há uma causa para a queda daquele muro, com certeza é a mentalidade daqueles que o construíram.
Quando Mikhail Gorbachev assumiu o poder em 1985 começava a ficar claro para o ocidente capitalista de que as coisas estavam mudando. Gorbachev fazia parte de um grupo dentro da Burocracia soviética que há muito já enxergava que aquela falsa estabilidade política (porque repressora) somada à irracionalidade do sistema produtivo eram os fatores conjugados que levariam o comunismo à ruína por suas contradições internas (que ironia!).

Nos anos finais da URSS (extinta em 1991), Gorbachev se recusou a interferir nas rebeliões dos outros regimes comunistas na área de sua influência. Em cada fronteira da URSS, os povos queriam derrubar seus muros sociais e psicológicos. E Gorbachev parecia estar sob efeito do pedido que ouviu em frente ao portão de Brandemburgo do presidente norte-americano, Ronald Reagan (muito influenciado pelas idéias de Hayek): “Gorbachev, derrube este muro”.
É óbvio que a transição dos países da Europa Oriental foi traumática. Acostumados a um sistema ineficiente e letárgico - produtor de pessoas acostumadas a receberem tudo do Estado -, se viam agora nos sistemas capitalistas democráticos, baseados na competição e na criatividade. Porém mais óbvio ainda é que não querem mais aquele muro e nem mais aqueles que o construíram. Prova disso é a rejeição, em toda a Europa, a partidos tradicionalmente de esquerda.






