sábado, 14 de novembro de 2009

“Mr. Gorbachev, derrube este muro!”

Alguns historiadores datam o fim do século XX no dia 9 de novembro de 1989. Naquela noite fria, milhares e milhares de habitantes da Alemanha Oriental foram rumo à fronteira com o território de seus irmãos ocidentais e exigiram passagem. Os que ficaram em casa achavam tudo aquilo absurdo. Absurdo porque durante vinte oito anos era impensável tal atitude por parte daquelas vidas separadas pelo muro; absurdo porque uma reação desproporcionalmente violenta por parte dos líderes do regime era algo comum.

O muro de Berlim diz muitas coisas sobre o século XX. Diz muita coisa sobre o que se chama Socialismo (ou Comunismo). Diz muito também a respeito do Capitalismo. Aquele concreto engenhosamente construído diz muito sobre o modo de fazer política no planeta Terra antes e depois de sua queda. Mas há também as mensagens que sua queda deixou. Uma delas é a de que a criatividade e aspirações que ligam o universo de um indivíduo ao de outro e o conjunto desses insondáveis universos particulares – a Sociedade – não deve ser objeto de demasiada coerção e planejamento por parte das autoridades em busca de um fim nobre – ainda que tais autoridades sejam legítimas e seus objetivos sejam realmente dignos de admiração.

A construção do muro de Berlim esconde a verdadeira causa de sua queda. Em 1961, o governo da Alemanha Oriental, preocupada com o elevado número de fugas para o lado capitalista, resolveu pôr fim a esta oportunidade de escolha de seu povo. Parece que esse desejo reprimido permaneceu latejando na mente e nos corações desses milhares de adultos e jovens que não estavam em Moscou em 1917, quando da tomada do poder pelo partido Bolchevique. Ao que tudo indica, ao longo do tempo a revolução foi perdendo não só seus ideais de Igualdade e emancipação (que paradoxalmente eram buscados às custas de excessivo controle e coerção) como também perdeu sua legitimidade. O episódio da Primavera de Praga, em 1968, é o corolário desta afirmação. Aqueles sim, verdadeiros revolucionários, queriam um Socialismo de “face humana”... Infelizmente os filhos de Lênin só entendiam as linguagens bélicas.

A Guerra Fria foi um período de alta tensão – e paradoxal estabilidade política – na qual as idéias de uma sociedade Capitalista de valores Liberais disputaram com a “alternativa” Socialista de valores igualitários (pelo menos, na teoria). Dizer que havia uma disputa entre hegemonia bélica é ingenuidade. Se a extinta URSS realmente tivesse poder de fazer frente ao arsenal norte-americano seu fim teria sido muito mais traumático. Em termos de economia também não há como aludir a uma disputa. O gigantesco abismo que separava o nível material do mundo capitalista do mundo comunista ficou visível quando aquelas antigas repúblicas anexadas à URSS se viram, pós 1991, na competição capitalista. Os efeitos colaterais daquele atraso se fazem presentes até hoje na Europa Oriental.

E sobre a política não há muito que falar. As experiências comunistas se caracterizaram por falta de eleições, partido único, censura, controle de informações e repressão violenta a dissidentes. E foi isto que fez vários intelectuais de todo o mundo se questionarem se o que acontecia no mundo Soviético era mesmo uma causa pela qual lutar. E dessa dissidência intelectual (principalmente na França) nasceu um pensamento crítico extremamente fecundo. Aliás, pode-se dizer que a Social-democracia nascida na Alemanha, no fim do século XIX, já era um dos prenúncios de que a Utopia da Liberdade via Controle – Socialismo – não era viável nem atraente.

O colapso Soviético não foi novidade. Não foi um erro de estratégia política. Nem mesmo um “azar”, apesar de que muitos dos apaixonados pelas idéias vermelhas dizem que teria dado certo, caso bem aplicado. Friedrich Von Hayek, economista austríaco (Nobel de Economia), em 1944 já falava da inevitabilidade do fracasso do planejamento central. E nesta época o modelo russo parecia dinâmico e “alternativo”. E foram justamente as idéias de planejamento central que influenciaram as idéias desenvolvimentistas-nacionalistas que pressupunham a necessidade de um Estado Indutor da Industrialização e Crescimento Econômico. Bem ou mal, os países periféricos (chamados à época de terceiro mundo; ex. Brasil, México) conseguiram em um tempo relativamente curto modernizarem suas economias. O custo disso foi a corrupção e a formação de democracias débeis e autoritárias.

Era sobre este inconveniente que Hayek chamava atenção em seu livro “O caminho da servidão”. Para ele, as sociedades livres, democráticas e de mercado deviam seu sucesso à interação de milhares de desejos, convicções e habilidades que postas em um ambiente pacífico e estável produziam um número infinito de informações e sinais à atividade econômica. O resultado dessa desordem era uma ordem espontânea extremamente eficiente e de opulência material. É só nesta ordem que haveria democracia – que muito antes de ser o povo no governo é governo do indivíduo sobre si mesmo. Nenhuma autoridade política (o planejador central) seria capaz de entender e processar as infinitas informações que as pessoas livremente associadas eram capazes de produzir. Restava-lhe ser ineficiente e coagir as pessoas a agirem conforme o planejamento. Morta a criatividade, já não haveria progresso tecnológico e de idéias. Se há uma causa para a queda daquele muro, com certeza é a mentalidade daqueles que o construíram.

Quando Mikhail Gorbachev assumiu o poder em 1985 começava a ficar claro para o ocidente capitalista de que as coisas estavam mudando. Gorbachev fazia parte de um grupo dentro da Burocracia soviética que há muito já enxergava que aquela falsa estabilidade política (porque repressora) somada à irracionalidade do sistema produtivo eram os fatores conjugados que levariam o comunismo à ruína por suas contradições internas (que ironia!).

Nos anos finais da URSS (extinta em 1991), Gorbachev se recusou a interferir nas rebeliões dos outros regimes comunistas na área de sua influência. Em cada fronteira da URSS, os povos queriam derrubar seus muros sociais e psicológicos. E Gorbachev parecia estar sob efeito do pedido que ouviu em frente ao portão de Brandemburgo do presidente norte-americano, Ronald Reagan (muito influenciado pelas idéias de Hayek): “Gorbachev, derrube este muro”.

É óbvio que a transição dos países da Europa Oriental foi traumática. Acostumados a um sistema ineficiente e letárgico - produtor de pessoas acostumadas a receberem tudo do Estado -, se viam agora nos sistemas capitalistas democráticos, baseados na competição e na criatividade. Porém mais óbvio ainda é que não querem mais aquele muro e nem mais aqueles que o construíram. Prova disso é a rejeição, em toda a Europa, a partidos tradicionalmente de esquerda.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Educação ou Ética?

É comum quando se discute as mazelas da sociedade brasileira chegar a um denominador comum sobre a causa - e por conseqüência a cura - de tais problemas: Falta educação de qualidade a nosso povo. Tal conclusão pode carregar uma ambigüidade. De que educação estamos falando? De um conjunto de valores éticos e morais que proporcionam uma convivência social minimamente estável? Ou estamos nos referindo àquele processo de reprodução/transmissão de conhecimentos técnicos e (também) éticos necessários não só à formação de um ambiente social satisfatório como também para o desenvolvimento material tão almejado em nossas sociedades?


As duas opções, apresentadas acima, não se excluem. Mas vamos nos ater à segunda opção: Aquela que pressupõe uma correlação positiva entre educação e ética (dito de outra forma, entre educação e progresso moral). Neste tipo de pensamento, uma melhora nos processos educacionais traria significativa melhora nas relações sociais estabelecidas entre os diversos grupos que compõe a sociedade. Soma-se a este argumento a tese econômica (correta) de que uma educação de melhor qualidade traz consigo progresso material (crescimento econômico). A soma destes dois argumentos tem como produto a tese, ao menos implícita, de que há correlação positiva entre riqueza e ética – ou seja, se os brasileiros fossem mais ricos (e por que não menos desiguais economicamente?) seriam mais éticos.

Não é preciso pensar muito para refutar esta tese. Caso fosse verdadeira, milhões de africanos vivendo na extrema pobreza seriam inevitavelmente corruptos. A vida social na Palestina – com o desemprego beirando 40% - seria impossível. Pior que isto é constatar que os piores índices de criminalidade estão no país mais rico do planeta. Sem falar que, se é verdade que opulência material produz ética, os políticos brasileiros (e a minoria social na qual têm berço) seriam ótimos exemplos de bom comportamento social e político.

Enfim, pode-se admitir que Educação, Riqueza e Ética são processos que muitas vezes se misturam e se afetam mutuamente; mas de modo algum se determinam.

Trouxe essa discussão à tona após ver em todos os jornais do país as notícias que tratavam acerca da loira da Uniban. É cômico, para não dizer trágico, ver alunos de uma Universidade agirem com tamanha ignorância, irracionalidade, estupidez, incivilidade e todo e qualquer termo que caracterize aqueles vândalos (que alguns pensam ser o futuro do país). Não se enganem. Não são jovens pobres. Não são jovens que cresceram em favelas. Cresceram em condomínios fechados. Muitos deles com certeza estudaram em escolas particulares. Muitos devem ser bilíngües. Cresceram também assistindo nossos entretidos programas de TV e se valendo do mundo de informações que a Internet nos proporciona. O resultado de tal criação/educação foi um bando de mentecaptos.

Quem achou que todos os componentes acima citados teriam como produto uma sociedade mais aberta, tolerante e menos preconceituosa e violenta (porque o tratamento dado àquela moça se caracteriza como violência) se enganou. Só na teoria mesmo.

E ver tais cenas num país como o Brasil, que durante quatro dias do ano vira um puteiro a céu aberto, torna ainda mais paradoxal e digno de repúdio. Não cabe julgar se a atitude “loiruda” é correta. Talvez uma sala de aula realmente necessite de pessoas vestidas de forma mais apropriada. O que em nada justifica a ação daqueles animais – não falo dos alunos, falo dos diretores da Universidade que queriam expulsar a aluna indecente.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Ajudando Lula sem querer


Já comentei em outros textos que 2010 começou mais cedo nos editoriais e enfoques jornalísticos da grande mídia brasileira. O excesso noticioso sobre Sarney (e o apoio de Lula), o fantasmagórico encontro entre Lina Vieira e Dilma, e a guarida dada a Manuel Zelaya na embaixada brasileira em Honduras demonstram a disposição editorial da grande imprensa brasileira em tentar atacar o alto grau de aprovação de Lula perante a população – a verdadeira portadora da opinião pública.

Quem acompanha este blog sabe que em nenhuma análise é levada a sério a tese fajuta de que os meios de comunicação de massa manipulam a mente das pessoas. Pode-se omitir ou distorcer um fato quando de sua publicação, mas o conjunto dos valores morais políticos dos cidadãos brasileiros (esta massa tão heterogênea) permanece pouco afetado por essa “elite publicante”.

Detectado este hiato entre a realidade exposta diariamente nos noticiários e aquela verdadeira realidade que emana dos julgamentos que as pessoas fazem ao escolherem seus candidatos, percebemos um processo de mudança no comportamento do mainstream editorial nacional.

Sobre a relação entre Lula e grande imprensa, destaquem-se alguns pontos:

- O primeiro mandato de Lula foi marcado por uma relação amistosa entre Governo e grandes conglomerados da imprensa. Esta situação só mudou quando da descoberta do Mensalão.
- O eleitor brasileiro parece pouco sensível à corrupção. Grande parte dos mensaleiros conseguiu se reeleger.
- Lula foi posto no status “acima de qualquer suspeita” com um simples “eu não sabia”.
- A aprovação de Lula só chegou aos níveis extraordinários em que está (quase 70%) no segundo mandato – coincidindo com o período de melhor crescimento econômico das últimas décadas.
- O noticiário econômico tem ressaltado constantemente o bom desempenho da economia brasileira durante a crise e, ao que tudo indica, o Brasil terá crescimento positivo ainda este ano; e, em 2010, já estaremos praticamente no mesmo ritmo pré-crise.

Partindo da hipótese de que, em grande medida, o povo brasileiro vota com o bolso (o que explica o sucesso de FHC nos anos 90), o grande alarde da imprensa sobre as novas e boas condições da economia brasileira pode, em alguma medida, impactar positivamente a imagem do governo.

Mas daí haveria uma contradição sobre a tese exposta - no começo do texto - de que jornais não conseguem formar a opinião das pessoas sobre determinados políticos (se tivessem tal poder, Fernando Collor não estaria no Senado).

Mas no caso da conjuntura econômica, os jornais seriam apenas o espelho do que o trabalhador estaria vivenciando em seu cotidiano – aumento do poder de compra, aumento do emprego e, para os mais necessitados, bolsa família. A imprensa ainda tenta denunciar a má qualidade do gasto público e a piora na qualidade da política fiscal (já que o superávit primário será quase nada este ano), mas tais fatos são por demais distantes do ambiente presente da maioria da população e não coincide com o “sentimento” de que por aqui quase não houve crise, ou no máximo uma “marolinha”.

Esta “coincidência” cotidiana da vida do trabalhador sendo publicada nas páginas e programas sobre economia e política pode acabar criando a interpretação diferente do que queriam aqueles que estão saturados de Lula (a Mídia-Oposição).

domingo, 25 de outubro de 2009

Continua Lindo e perigoso


Esta semana que passou foi marcada pelas inúmeras notícias mostrando ao Brasil um pouco da barbárie que é a capital fluminense. Se a beleza da cidade maravilhosa é um atributo divino, a guerra do tráfico, de proporções relativas ao que se vê no Oriente médio, é um atributo igualmente maligno do Rio. Não, não – a culpa não é do diabo. O Rio ilustra o Brasil, o Brasil ilustra o Rio. É o retrato de um processo de urbanização desequilibrado, mal planejado e de um Estado incapaz de combater um estado paralelo, governado por traficantes.

Aquela manhã de sábado (17/10) deixou perplexo o Brasil inteiro, que viu um helicóptero da PM ser abatido por traficantes e viu também oito ônibus serem queimados como forma de protesto das facções criminosas, indignadas pela ação da polícia na área. Um misto de perplexidade e revolta acompanhou os telespectadores ao verem a divulgação de imagens da madrugada de domingo (18/10), que registraram o assassinato do líder do grupo Afro reggae, Evandro João da Silva, morto por dois bandidos. Mas o pior das imagens foi ver que os policiais, que estiveram no local do crime trinta segundos (!) após o crime, passaram pela vítima e, além de não prestar socorro, ainda roubaram pertences da vítima. Ficou nítido que os policiais tiveram a oportunidade de prender os assassinos e não o fizeram.

Com tais cenas chocantes – o armamento dos criminosos e a corrupção da polícia –, o debate acerca da segurança (ou insegurança) pública brasileira corre sempre o risco de descambar para as idéias fáceis de mais repressão, imperando uma ingenuidade de que a polícia tem condições de fazer acabar o crime, caso o quisesse fazê-lo. O filme “Tropa de elite” (2007) ajudou a disseminar a idéia de que o BOPE tem condições de ganhar a guerra (ou a batalha). Como eu disse, é ingenuidade pensar que há “ilhas” de eficiência na polícia carioca. Aquela manhã de sábado mostrou bandidos queimando ônibus. E o BOPE só assistiu.

O agravante é quando ampliamos o debate acerca do Rio (que é o Brasil) e vemos que, semanas atrás, o ufanismo nacionalista tomou conta das autoridades políticas com a escolha do Rio para sede das Olimpíadas de 2016. Assistimos aos vídeos da campanha e vimos um Rio sem morros e sem favelas. Limpo. Trânsito fluído. Aquele Rio era suíço!

A experiência do Pan-americano de 2007 ensinou duas coisas: (I) O Brasil não tem capacidade de organizar eventos de tal envergadura sem que haja um descontrole dos gastos e um projeto de longo prazo que realmente traga benefícios à população; (II) o Rio só consegue espasmos de paz em situações excepcionais nas quais há quase uma militarização das ruas, um forte aumento de contingente policial e também quando de um acordo com o tráfico para um “cessar fogo” (isto porque, nos dias do PAN houve um acordo entre polícia e tráfico).

Diferentemente da “paz pan-americana”, que foi uma situação excepcional, esta semana de conflitos, com saldo de mais de trinta vítimas, não é caso isolado. A corrupção de policiais também não é caso isolado. E tratar tais fatos assim é só parte do pensamento autoritário que pensa a situação como sendo fruto de erros isolados.

Não há vácuo de poder. A ausência e ineficiência do braço armado do Estado – a Polícia – necessariamente implicam que surjam poderes paralelos nestas regiões abandonadas. E não é só ausência militar: é também a péssima escola, o péssimo posto de saúde e a falta de planejamento operacional da polícia que desova em ações barbeiras que acabam jogando a própria população local contra a polícia.

O Rio de janeiro continua lindo. E aquela beleza toda parece inebriar as mentes dos formuladores de políticas públicas. Aquela beleza toda parece transmitir passividade e obscurecer o caos daquelas favelas sitiadas. Mais repressão policial sem planejamento só vai provocar a retaliação de milícias locais (que ao contrário da polícia, não precisa agir dentro da lei) e também a reprovação da polícia perante a população local – sempre agredida com a força desproporcional usada pela polícia. Daí, aquele abraço...

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

De boas intenções o inferno está cheio



Hugo Chávez costumava chamar George Bush de El Diablo. Diz a lenda que os demônios se reconhecem até pelo cheiro, de enxofre. De fato, Bush realmente não contribuiu nem um pouco para a paz mundial. Começou uma guerra no Afeganistão, em 2002, nomeando-a de “Guerra contra o terror” e depois invadiu o Iraque, depôs Saddam Hussein, e nunca achou as tais armas nucleares, usadas como pretexto para a guerra. O legado da era Bush é o fato de que mais 350 mil soldados norte-americanos estão no Oriente Médio e a diplomacia internacional – institucionalizada na ONU – está profundamente desabilitada e desacreditada.

Tudo isso junto e misturado se tornava um grande desafio para Barack Obama quando assumiu a presidência americana em fevereiro deste ano. Pouca (ou nenhuma) coisa mudou. Obama classificou a guerra no Iraque como guerra ruim, e a do Afeganistão como guerra boa. Planeja retirar tropas do Iraque e remanejá-las para o Afeganistão. Planeja mandar mais jovens ao Afeganistão. Só planeja.

E com toda a dificuldade de colocar em prática seus magníficos discursos, Obama ganhou da academia sueca o prêmio Nobel da Paz. A academia alega que o prêmio é concedido mais pelo cunho das idéias e intenções do que por feitos. De boas intenções o inferno (casa de El Diablo, Bush) está cheio. É talvez para lá que vai Obama.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Que tal falarmos da Yeda?

A opinião do senso comum sobre a relação entre veículos de comunicação jornalísticos e sociedade é a de que aqueles manipulam como querem esta última, sempre indefesa e incapaz de reagir de forma que não seja aquela esperada. Em outras palavras, a sociedade é composta por um bando de idiotas e mentecaptos, totalmente vulneráveis às expertises de editores e jornalistas comprometidos com o poder político ou de grandes empresas. Isto é pura Teoria da Conspiração, infantilidade ou desonestidade intelectual de quem assim pensa.

Mas não se pode negar a capacidade de que, se não tem capacidade para manipular, os grandes conglomerados da informação (principalmente os jornalísticos) podem, no mínimo, selecionar uma pauta (agenda) a ser explorada e assim excluir toda uma parte da realidade factual potencialmente publicável. Podem, sutilmente, definir o que é importante. E ao ser publicado, acaba mesmo sendo importante.

Tendo em vista que 2010 começou mais cedo, tudo indica que as editorias políticas vão entrar de cabeça na disputa eleitoral. Como argumentado acima, não podem convencer os eleitores a votarem neste ou naquela, mas podem criar uma agenda e supervalorizar alguns acontecimentos em detrimento de outros – o que por si só minimiza a repercussão destes. Por isso o excesso noticioso sobre Sarney, Lina Vieira, Petrobrás etc. acaba criando constrangimentos à base governista e ao petismo em todo o país.

O tratamento recebido pela oposição é o “não-tratamento”, o que por si só já ajuda ao não atrapalhar. Uma das grandes táticas eleitorais em períodos de turbulência é justamente se manter longe da confusão e deixar que as instabilidades por si desgastem os envolvidos. Isso a mídia pode fazer: Desgastar imagens. E em sociedades “hiperinformadas”, com altos recursos tecnológicos visuais e uma população que faz uso da TV como principal meio de informação(como a brasileira), imagem é tudo.

Tem uma governadora Tucana à beira de um impeachment. Acusada de caixa dois (achei que só Petistas fizessem isso). Acusada de superfaturamento em autarquias estaduais. E obviamente com maioria na Assembléia Legislativa Estadual, já criou inúmeros entraves políticos ao processo de impeachment. Até mesmo o presidente do Tribunal de contas do estado da tal governadora está sendo processado, justamente por “deixar passar” as contas da campanha vitoriosa em 2006.

O leitor desculpe à imprecisão do relato acima. É que nos jornais (impressos ou televisivos) praticamente nada se fala sobre o assunto. Ainda bem que tenho a internet – e ainda sim não foi fácil ficar por dentro do que estava acontecendo com a Tucana. No jornal “Zero Hora”, o maior do estado em questão, praticamente nada se fala. E a editora política, em texto publicado hoje, chega a aludir que há uma enorme convicção por parte da base aliada de que não há irregularidades ou improbidade administrativa no governo Tucano.

Precisamos falar da Yeda.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Pelo menos não somos Honduras

Muitos dizem que o Brasil é um país atrasado politicamente. Um país governado por uma elite política patrimonialista, coronelista, corrupta e ineficiente. Um país com grandes problemas econômicos e sociais a serem resolvidos. Dizem (uma minoria) que nosso presidente é um populista panfletário. Concordando ou não com os que assim pensam, admitamos: Não somos uma Honduras!

Nosso país tem um território com proporções continentais. E parece mesmo ser um outro continente. Estamos (ou estávamos) nos descolando politicamente da América Latina. Por aqui, não vingou o bolivarianismo. Também não temos aversão ao “império”. Lula parece muito preocupado em eleger sua sucessora e totalmente indisposto a tentar um terceiro mandato. Enfim, somos atrasados, mas nossas instituições políticas, ainda que débeis, parecem garantir um nível satisfatório de estabilidade, ao contrário da grande maioria de nossos vizinhos que, constantemente, têm passado por crises institucionais.

Basicamente o que se tem visto ao redor da América Latina é um híbrido do crônico Caudilhismo transmutado com um discurso socialista, paradoxalmente Nacionalista. É uma farofa ideológica. Líderes, historicamente representantes de setores conservadores da sociedade, com dificuldades em governar e manter o status quo acabam abraçando um tom nacional-socialista como forma instaurar democracias populistas. Na América Latina difundiu-se a idéia de que popularidade é sinônimo de Democracia. Nem Lula, nem Chávez, nem Zelaya têm a popularidade que Hitler desfrutava na Alemanha nazista do século passado. E creio que é consenso de que naquela Alemanha não havia qualquer atributo político louvável.

O que está acontecendo em Honduras é fruto de uma barbeiragem política sem tamanho. Chávez conseguiu pisar na Constituição e estabeleceu reeleição ilimitada. Evo Moralez também. Rafael Correa também. Até o “alinhado” ao Império Álvaro Uribe está com tara ditatorial (isto para provar que, à direita ou à esquerda, somos todos antidemocráticos). Só o incompetente do Zelaya não conseguiu. E ainda por cima voltou para o país, onde há um mandato judicial que pede sua prisão, e se alojou na embaixada brasileira. Sobrou justamente pra gente. Sobrou para o Lula que, com toda sua perspicácia política, entendeu que dá para conciliar a benção dos mercados e das autoridades externas e ainda sim promover um governo que atendeu, segundo as pesquisas de opinião, as expectativas da população.

Como de costume, o Brasil vai adotar uma posição moderada e conciliadora. Lula, em consonância com toda a comunidade internacional, repudiou a atitude dos militares hondurenhos e não reconhece o governo golpista, de Roberto Micheletti (que é do mesmo partido de Zelaya!). Tendo a batata (ou banana) quente nas mãos (na embaixada), Lula já tratou de pedir uma posição mais incisiva da ONU no caso, já que a liderança do Brasil na região é pouco efetiva – o que demonstra que nosso país escolheu outros rumos.

Não nos enganemos: Não há bons e maus na crise hondurenha – ambos estão contra a democracia (ressalte-se que os militares agiram sob ordem da Suprema Corte do país). Aqui também não temos o lado do bem e do mal. Mas depois de oito anos do governo do PT (talvez o maior partido de esquerda do mundo), o Brasil parece estar bastante avançado em relação às anomalias políticas da América Latina.